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17/07/2017
Filha de ministro da Saúde casa em meio a protesto com ovos e tumulto
 
No início, foram ovos. Depois, vieram copos de cerveja, garrafas, algumas pedras, cuspe e até lixo. Todos arremessados contra uma noiva que subia ao altar.

A noiva era a deputada estadual Maria Victória Barros (PP) –filha do ministro da Saúde, Ricardo Barros, e da vice-governadora do Paraná, Cida Borghetti.

O clã pepista, que está na política há três gerações, casava a caçula de 25 anos na noite desta sexta (14), em uma igreja histórica no centro de Curitiba, com recepção para 1.200 pessoas. O presidente Michel Temer (PMDB) foi convidado, mas não compareceu.

Em frente, dezenas de pessoas se reuniram para protestar contra o que chamavam de "casamento ostentação".

Uma estrutura metálica foi erguida no local da festa, a Sociedade Garibaldi, cujo prédio é um patrimônio histórico, a fim de abrigar os convidados. Arquitetos reclamaram da intervenção; e a coordenação do patrimônio cultural acabou autorizando a obra depois de erguida, mas multou os proprietários do edifício pela falta de pedido prévio.

Uma das listas de presentes foi divulgada em jornais locais, com açucareiros de R$ 400 e garrafas térmicas de prata. Uma convidada, que não quis se identificar, disse à Folha que a informação é mentirosa, e que havia presente de menos de R$ 100 em lojas.

Da rua, dava para ver o bolo de seis andares, uma parede de rosas vermelhas e doze lustres de cristal que decoravam a entrada.

A deputada foi eleita em sua primeira disputa, aos 22 anos. Em 2015, foi uma das que votaram a favor de um pacote fiscal do governo de Beto Richa (PSDB), que terminou em protesto com dezenas de pessoas feridas e cuja lembrança inflamava parte dos manifestantes.

"Essa galera não é gentil com nosso dinheiro. É uma classe de corruptos, bandidos", afirmou o estudante João Francisco de Almeida Júnior, 18, militante do PCdoB. "É um casamento feito com dinheiro público, dessa magnitude, na nossa cara."

Ao seu lado, manifestantes reclamavam de falta de remédios nos postos de saúde, fim de direitos trabalhistas e votações tramitadas a galope.

À "Gazeta do Povo", a mãe da noiva disse que a festa era "familiar, e não política".

"É o sonho de toda mulher. E o que foi que ela fez? Ser política?", disse, na saída da festa, a ex-primeira-dama do Paraná Regina Pessutti. "Não vi isso nem em comício no interior, dos mais aguerridos."

CONFRONTO

Pouco antes das 19h, horário marcado para a cerimônia, teve início o protesto. Aos manifestantes, parte de sindicatos e partidos de oposição ao governo federal, somaram-se estudantes e frequentadores dos bares ao redor, aos gritos de "golpistas" e "Fora Temer". Alguns carregavam cartazes criticando a condenação de Lula na Lava Jato, nesta semana.

Convidados eram vaiados e xingados na entrada. A noiva, chamada de "vagabunda" e "filha da puta", teve que ser escoltada por policiais —e guarda-chuvas— para chegar à igreja. Mesmo assim, teve o vestido manchado.

Na saída, convidados ficaram ilhados na igreja por quase duas horas, ao som de ovos espatifados contra as paredes. Um grupo de músicos tocava tambores e cornetas próximo às janelas. Cerca de 30 policiais do choque, com escudos e capacetes, cercavam a porta.

Os noivos e os pais saíram de van, escoltados pela polícia. Mais ovos foram atirados contra o veículo, que foi cercado. Convidados que seguiam a pé para a festa foram xingados e também tiveram copos e ovos arremessados contra si. Mulheres e crianças choravam, mas alguns discutiam e retrucavam: um deles mostrou o dedo do meio à rua, já na festa.

"A gente joga ovo, e eles jogam balas de borracha, bombas de gás", comentou o estudante Almeida Júnior.

Um convidado que se identificou apenas como Fred, sem dar o sobrenome, disse à Folha que "foi um clima de pânico e terror". Ele chamou os manifestantes de bandidos e, o ato, de terrorismo.

Houve quem lamentasse a violência: "Não partiu de mim. Mas infelizmente era previsível", afirma o estudante de Direito Alexander Assumpção, 27. "O povo chegou ao limite."

Com um amigo, ele dançava em frente ao local da festa, ao som de "Fly Me to The Moon", interpretada por Frank Sinatra.

"Não excedeu, porque estamos cansados. É uma revolta ao extremo. Cada dia perdendo direitos", afirmou o professor Diego Matos Barbosa, 30, que acabou na manifestação por acaso.

Havia relatos de ao menos duas pessoas feridas —um manifestante e um policial. Por volta das 22h, a PM ainda soltou uma bomba de gás para dispersar parte dos manifestantes e permitir a saída dos últimos convidados da igreja.

"Em qualquer evento com aglomeração de pessoas e possibilidade de confronto, a polícia tem a obrigação de guarnecer", disse o secretário da Segurança Wagner Mesquita, que também era convidado da festa. Segundo ele, somente o efetivo do centro de Curitiba foi mobilizado para o evento, diante dos protestos. "Não existe
partidarismo aqui; em qualquer evento de qualquer movimento organizado, nós estaremos lá."

Em nota, a PM informou que foi acionada "em face de manifestações agressivas", e que atuou pela "segurança dos manifestantes e a garantia da liberdade de ir e vir".

A festa seguiu sem intercorrências. Pouco depois da 1h, Victória jogou o buquê.

Em nota neste sábado (15), a família afirmou que lamenta as agressões, "porém, é o preço da democracia". Atribuiu ainda a motivação dos protestos à pré-candidatura de Cida Borghetti ao governo do Paraná, em 2018.

Para pai, mãe e filha, o ato foi "incentivado e financiado por partidos e sindicatos de esquerda".

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